terça-feira, 8 de outubro de 2013

Informaçoes sobre o Museu Casa Guimaraes Rosa


O Museu Casa Guimarães Rosa (MCGR), unidade vinculada à Superintendência de Museus do Estado de Minas, foi criado através da Lei nº 5775 de 30 de setembro de 1971. Sua criação foi idealizada no contexto de dois fatos distintos: o inesperado falecimento de Guimarães Rosa em novembro de 1967 e a criação do IEPHA, que materializava o sonho preservacionista, vigente à época, no âmbito do Estado. Foi inaugurado em 30 de março de 1974, na casa onde nasceu o escritor e passou sua infância em Cordisburgo, cenário de experiências que irão servir da matéria-prima para a sua obra. Concebido como centro de referência da vida e obra do escritor, o Museu preserva um acervo de vários objetos, composto de registros de sua vida profissional como médico e diplomata, objetos de uso pessoal, vestuário, utensílios domésticos, mobiliário e fragmentos do universo rural descrito por Rosa, a exemplo de objetos de montaria e relacionados à atividade pecuária. Também está sob a guarda do Museu uma coleção de cerca de 700 documentos textuais entre os quais merecem referência os registros de caráter pessoal (certidões, correspondência recebida e emitida, documentos escolares), discursos, artigos em periódicos e originais manuscritos ou datilografados, a exemplo de “Tutaméia”, sua última obra publicada.
Na década de 1980, o Museu sofreu algumas intervenções onde foram organizados seus documentos textuais e executadGuimaraes Rosao um novo projeto expográfico, com a reconstituição do estabelecimento comercial mantido pelo seu Fulo, pai do escritor, que funcionava em um cômodo integrado à residência da família, como era de costume nas pequenas cidades do interior de Minas.
O Museu Casa Guimarães Rosa constitui hoje, referência importante para o turismo em Minas, integrando o roteiro tradicional de visitas à Gruta do Maquiné e arredores. Mas, para além desse turismo convencional, responsável por expressivo número de visitantes, o Museu vem se firmando, desde a década de 1980, como centro de atração de pesquisadores nacionais e internacionais, interessados em conhecer o seu acervo museológico, bem como o patrimônio cultural e ambiental disperso nas áreas urbana e rural do município de Cordisburgo, paisagem que deixou marcas indeléveis expressas na obra do escritor. Concomitante a esse crescente interesse de estudiosos e leitores de Rosa, as relações entre o Museu e a comunidade local tornaram-se significamente estreitas, graças a uma programação de ação cultural, que têm promovido experiências contínuas de apropriação pelo público da obra poética do escritor.
Concretamente, o turismo cultural e de pesquisadores em Cordisburgo, aliado à participação efetiva da comunidade nas atividades do Museu, resultaram em projetos e atividades que vêm ampliando a atuação museológica para além dos limites estritamente institucionais. São projetos, eventos e atividades desenvolvidos pela Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa (AAMCGR), e que visam divulgar a obra do escritor para o turista e, sobretudo, para a população local.
Um desses projetos é a Semana Roseana que acontece a 20 anos em data próxima ao aniversário de nascimento do escritor, atraindo um turismo cultural significativo não apenas de outras regiões do Estado como do país, além de reunir pesquisadores e estudiosos provenientes de centros acadêmicos, a exemplo da USP, UFMG, UFRJ, PUC-MG. O evento abrange diferentes atividades como oficinas literárias, de música, de artes plásticas (desenho, xilogravura), fotografia, palestras, apresentações teatrais, lançamento de livros, feira de artesanato e shows musicais. Também é realizada a caminhada eco-literária, que percorre itinerário urbano e rural registrados por Rosa em sua literatura, como a antiga Estação Ferroviária, a própria Casa onde vivia o escritor, hoje sede do Museu, a Capela de São José, Fazendas e Cidades vizinhas como Três Marias e Morro da Garça. Acompanhada por conhecedores locais da obra de Guimarães Rosa ou pelo Grupo de Contadores de Estórias Miguilim, a Caminhada permite aos participantes conhecer a paisagem do cerrado e a cultura do sertão perenizados na obra do escritor.
No elenco de atividades de ação cultural, desenvolvidas pelo Museu e AAMCGR, a formação e manutenção do Grupo de Contadores de Estórias Miguilim pode ser considerado o projeto de maior alcance sociocultural. Atualmente são cerca de 52 jovens, entre 11 e 18 anos, que recebem formação permanente em técnicas de narração de estórias e sobre a vida e obra de Guimarães Rosa, apresentando um repertório rico que inclui trechos e contos de livros como Sagarana, Manuelzão e Miguilim, Grande Sertão: Veredas, Primeiras Estórias, Ave Palavra, No Urubuquaquá no Pinhém, Magma. Criado em 1995, com o objetivo de prestar acompanhamento e enriquecer as visitas ao Museu, o Grupo ultrapassou as fronteiras institucionais, adquirindo expressão regional e nacional. Além do espaço do Museu o Grupo tem-se apresentado em diferentes cidades de Minas e do país, em universidades, congressos, seminários, escolas de 1º e 2° graus, instituições culturais e filantrópicas.
Também foi criado o Grupo da Terceira Idade “Estrelas do Sertão” formado por mulheres que se reúnem para conversar, trocar receitas, fazer ginástica, cantar e bordar. Esse trabalho se aproxima da obra de Rosa de uma maneira simples e afetuosa, como, por exemplo, quando uma colcha é bordada com frases e imagens extraídas dos textos, da vida e do imaginário das pessoas. Em 2006 foi lançado o livro “O Coração do Lugar” – Depoimentos para Guimarães. É um livro que constrói uma relação entre a realidade vivida e a obra literária através da reunião de memórias individuais e coletivas, tendo como referência o rico acervo de correspondências do escritor que se encontra no Museu.
O caráter contínuo e permanente desses projetos, envolvendo diferentes atores, em especial moradores de Cordisburgo, consolidaram uma dinâmica culturalmente produtiva, assinalando perspectivas museológicas inovadoras, que no entanto, são pouco exploradas pelo próprio Museu. É possível afirmar que os serviços oferecidos pelo Museu nem sempre atendem às reais demandas e práticas culturais de seu próprio usuário. Os processos de difusão e apropriação social da obra literária de Guimarães Rosa e o reconhecimento da população local de um acervo museológico que extrapola os muros institucionais são experiências que devem ser assumidas e incorporadas pelo Museu. A exposição permanente, misto de uma reconstituição de ambiente doméstico e abordagem de determinadas tipologias de acervo, expressa paradigmas de uma museologia tradicional que precisam ser revistas. Documentos preciosos, como o original de “Tutaméia”, encontram-se praticamente inacessíveis para o público e pesquisadores, assim também como não há qualquer referência ao universo rosiano, que se descortina nos arredores do próprio Museu, acervo esse já incorporado como patrimônio coletivo de Cordisburgo.

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